Incêndios
Nem tudo era drama, nem solidão.
O menino coroado pelo rei carrapato mergulhou no lago um profundo sono. Já mencionei as lágrimas? Não, porque não havia lágrimas, havia só um lago.
Entrou no inventário mais uma vez. E foi o primeiro que percebeu algo diferente.
Entrou no inventário mais uma vez. E foi a primeira que. Podia sentir o barulho que emanava de todos os poros de seu corpo proporcionando o momento de felicidade plena. Parecia desmoronar, podia sentir a plenitude do que estava para acontecer. Fogo! Assim que curvou-se para amarrar os sapatos novos, a chama começou a partir de seus pés. Ele achou bonito e se lembrou de remotos momentos da infância em que sentado na pedra próxima ao lago, observava o incêndio, distante, na floresta – e as cores eram tão vivas, tão lúcidas, tão intensas, verdadeiras. Podia sentir o barulho que emanava de todos os poros de seu corpo – cada um uma boca aberta em espasmo, a berrar e secar os lagos de lágrimas.
Os filhos, podem, conseguem, devem discutir com o pai. O lago e o espelho. O carrapato no meio. Percebeu o erro. Ter incendiado seu próprio inventário,
E nunca ter gritado o mais alto quanto pode. Porque seus gritos não eram gritos, eram incêndios.
Se depois me fosse confidenciado, eu espalharia. Faria mil pedaços e cortaria em pequenas tiras – daquelas que se medem cuidadosamente. E se ainda que não me fosse permitido, distribuiria. Exatamente como aconteceu. Já mencionei as lágrimas?
Não pôde. Bateram na porta e o fizeram sair sem que pestanejasse. Jante, infeliz! A língua afiada de seu pai estalava. E assim foi feito, e ele comeu seus próprios filhos, e o reino já ruínas. Mas crianças conseguem discutir com o pai. Acordou! E a palavra relampejou cortando-o, tanto que sangrou. Saiu cambaleando direto para o quarto. Quando se viu só no escuro, levantou-se derrubando o que vinha pela frente e correu em direção ao banheiro.
A banheira, a latrina, as paredes, a janela, ele e os pensamentos. Ele estava com os óculos e via perfeitamente. A presença de bravos cavaleiros lhe era perturbadora e humilhante. Como ousavam? Voltou a pensar e continuar a criação da incômoda situação. E assim ficou por horas, até que a batalha acabasse e ele, quase morto, vivenciasse glória.
Fogo! Assim que curvou-se para amarrar os sapatos novos, a chama começou a partir de seus pés. Ele achou bonito. Era o Deus fogo, poderoso, destruidor, temido até pelos mais temidos. Mais poderoso até do que seu próprio pai, podia sentir.
Seu pai estava de pé ao seu lado murmurando palavras para ele obscenas e mexendo muito a boca. Falava de um uniforme azul, de fábricas e de jantares. Então, tudo já era chama e o banheiro, moradia de tantos anos, logo não suportaria. Tentou de qualquer forma se concentrar; lembrou-se dos cavalos dos reinos e dos dias de glória. Pensou no lago, nostálgico. Tentou mensurar quanta inspiração já saíra de lá. Errando de novo. Quando já não pôde mais, havia fogo por toda a casa e em uma fração de segundos, arrebentou a porta de entrada da casa, atingindo o jardim e toda a vila. Já não poderia agüentar muito tempo. O pai berrava e não mais podia entender do que se tratava. Olhava aquela des-figura no espelho imaginando, eufórico, um pleno vazio. Nada mais além de cinzas - no meio das tantas outras, no meio de tanto pó, tantas coisas já mortas naquele banheiro-casa-vila. Naquela vida. Já mencionei as lágrimas?
O menino coroado pelo rei carrapato mergulhou no lago um profundo sono. Já mencionei as lágrimas? Não, porque não havia lágrimas, havia só um lago.
Entrou no inventário mais uma vez. E foi o primeiro que percebeu algo diferente.
Entrou no inventário mais uma vez. E foi a primeira que. Podia sentir o barulho que emanava de todos os poros de seu corpo proporcionando o momento de felicidade plena. Parecia desmoronar, podia sentir a plenitude do que estava para acontecer. Fogo! Assim que curvou-se para amarrar os sapatos novos, a chama começou a partir de seus pés. Ele achou bonito e se lembrou de remotos momentos da infância em que sentado na pedra próxima ao lago, observava o incêndio, distante, na floresta – e as cores eram tão vivas, tão lúcidas, tão intensas, verdadeiras. Podia sentir o barulho que emanava de todos os poros de seu corpo – cada um uma boca aberta em espasmo, a berrar e secar os lagos de lágrimas.
Os filhos, podem, conseguem, devem discutir com o pai. O lago e o espelho. O carrapato no meio. Percebeu o erro. Ter incendiado seu próprio inventário,
E nunca ter gritado o mais alto quanto pode. Porque seus gritos não eram gritos, eram incêndios.
Se depois me fosse confidenciado, eu espalharia. Faria mil pedaços e cortaria em pequenas tiras – daquelas que se medem cuidadosamente. E se ainda que não me fosse permitido, distribuiria. Exatamente como aconteceu. Já mencionei as lágrimas?
Não pôde. Bateram na porta e o fizeram sair sem que pestanejasse. Jante, infeliz! A língua afiada de seu pai estalava. E assim foi feito, e ele comeu seus próprios filhos, e o reino já ruínas. Mas crianças conseguem discutir com o pai. Acordou! E a palavra relampejou cortando-o, tanto que sangrou. Saiu cambaleando direto para o quarto. Quando se viu só no escuro, levantou-se derrubando o que vinha pela frente e correu em direção ao banheiro.
A banheira, a latrina, as paredes, a janela, ele e os pensamentos. Ele estava com os óculos e via perfeitamente. A presença de bravos cavaleiros lhe era perturbadora e humilhante. Como ousavam? Voltou a pensar e continuar a criação da incômoda situação. E assim ficou por horas, até que a batalha acabasse e ele, quase morto, vivenciasse glória.
Fogo! Assim que curvou-se para amarrar os sapatos novos, a chama começou a partir de seus pés. Ele achou bonito. Era o Deus fogo, poderoso, destruidor, temido até pelos mais temidos. Mais poderoso até do que seu próprio pai, podia sentir.
Seu pai estava de pé ao seu lado murmurando palavras para ele obscenas e mexendo muito a boca. Falava de um uniforme azul, de fábricas e de jantares. Então, tudo já era chama e o banheiro, moradia de tantos anos, logo não suportaria. Tentou de qualquer forma se concentrar; lembrou-se dos cavalos dos reinos e dos dias de glória. Pensou no lago, nostálgico. Tentou mensurar quanta inspiração já saíra de lá. Errando de novo. Quando já não pôde mais, havia fogo por toda a casa e em uma fração de segundos, arrebentou a porta de entrada da casa, atingindo o jardim e toda a vila. Já não poderia agüentar muito tempo. O pai berrava e não mais podia entender do que se tratava. Olhava aquela des-figura no espelho imaginando, eufórico, um pleno vazio. Nada mais além de cinzas - no meio das tantas outras, no meio de tanto pó, tantas coisas já mortas naquele banheiro-casa-vila. Naquela vida. Já mencionei as lágrimas?
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